Tecnologia nas escolas: o Brasil avança na digitalização, mas ainda enfrenta o desafio de transformar acesso em aprendizagem
Pesquisa TIC Educação 2025 revela que a tecnologia já está integrada ao planejamento de grande parte das escolas brasileiras. Entretanto, dados sobre avaliação de resultados e um relatório global da UNESCO mostram que o verdadeiro desafio vai além de disponibilizar equipamentos e plataformas digitais.
Por Perfilcomp, Farroupilha/RS
23 de outubro de 2026
A transformação digital já faz parte da realidade de muitas escolas brasileiras. Computadores, plataformas educacionais, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de gestão estão modificando a maneira como instituições organizam suas atividades e desenvolvem práticas pedagógicas. Mas uma pergunta começa a ganhar importância: a presença dessas tecnologias está se traduzindo em melhores resultados para os estudantes?
Dados da pesquisa TIC Educação 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostram que 85,3% dos gestores de escolas com acesso à internet concordam que o uso de tecnologias digitais está integrado ao projeto político-pedagógico de suas instituições. Outros 84,6% afirmam que essa integração também acontece no currículo escolar.
Os percentuais revelam uma percepção positiva sobre a presença da tecnologia no planejamento educacional. Entretanto, quando o assunto é avaliar seus resultados, o cenário apresenta diferenças importantes.
Segundo a mesma pesquisa, 67,2% dos gestores concordam que suas escolas monitoram o impacto do uso das tecnologias digitais na aprendizagem por meio de avaliações.
A diferença de 18,1 pontos percentuais em relação à integração ao projeto pedagógico levanta uma questão relevante: incorporar tecnologia ao ensino é uma coisa. Compreender e demonstrar seus efeitos sobre a aprendizagem é outra.
O desafio de transformar tecnologia em resultado
Durante muito tempo, a transformação digital na educação esteve associada principalmente à disponibilidade de equipamentos, laboratórios de informática e acesso à internet.
Hoje, esse conceito é mais amplo. Envolve plataformas de aprendizagem, sistemas de gestão educacional, ferramentas de colaboração, recursos de acessibilidade e, mais recentemente, aplicações de inteligência artificial. Mas a existência dessas soluções não garante, por si só, que os estudantes estejam aprendendo mais.
A TIC Educação 2025 também revela que 70% dos gestores concordam que os professores de suas instituições possuem habilidades necessárias para utilizar tecnologias digitais nas atividades educacionais. Embora represente uma parcela expressiva, esse resultado também mostra que a percepção sobre a preparação dos professores não acompanha integralmente os níveis de integração tecnológica relatados pelas escolas.
Isso reforça a importância de pensar a digitalização como um processo que envolve pessoas, metodologias, infraestrutura e acompanhamento contínuo. Afinal, uma escola pode contar com ferramentas digitais modernas e ainda enfrentar dificuldades para utilizá-las de maneira efetiva no processo de ensino e aprendizagem.
O que a UNESCO diz sobre o impacto da tecnologia na educação
Essa discussão não é exclusiva do Brasil.
O relatório Global Education Monitoring Report 2023 — Technology in Education: A Tool on Whose Terms?, publicado pela UNESCO, analisa como diferentes países incorporam tecnologias aos seus sistemas educacionais e questiona a ideia de que digitalizar o ensino seja, automaticamente, sinônimo de melhorar sua qualidade.
O documento reconhece que as tecnologias digitais podem ampliar o acesso ao conhecimento, apoiar professores, facilitar a inclusão e contribuir para a gestão educacional.
Entretanto, destaca que as evidências sobre seus efeitos na aprendizagem são variadas. Os resultados dependem de fatores como contexto socioeconômico, preparação dos professores, objetivos pedagógicos e condições de utilização.
A UNESCO também chama atenção para a desigualdade digital mundial. Segundo os dados apresentados no relatório de 2023, apenas 40% das escolas primárias do mundo tinham acesso à internet no período analisado. O indicador evidencia que a transformação digital acontece em velocidades diferentes. Enquanto algumas instituições já experimentam IA e ambientes de aprendizagem personalizados, outras ainda enfrentam dificuldades para garantir conectividade básica.
Nesse contexto, a UNESCO defende que as decisões sobre tecnologia educacional sejam orientadas pelas necessidades dos estudantes, por evidências de resultados e pela sustentabilidade dos investimentos. A tecnologia, portanto, deve complementar o trabalho dos professores, e não substituir a relação humana que sustenta o processo de aprendizagem.

O Brasil precisa olhar para além do software
Os dados brasileiros e as conclusões internacionais apontam para um desafio comum: não basta disponibilizar tecnologia. É necessário criar condições para que ela seja utilizada com qualidade.
Isso envolve investimentos que nem sempre aparecem diretamente nas salas de aula.
Uma plataforma educacional, por exemplo, depende de conectividade estável, equipamentos adequados e sistemas disponíveis e proteção dos dados de professores e estudantes.
Da mesma forma, soluções de inteligência artificial e análise de dados educacionais exigem:
infraestrutura computacional
integração entre sistemas
e mecanismos de segurança e governança.
Quando esses elementos não são considerados em conjunto, a adoção de novas ferramentas pode gerar ambientes fragmentados, dificuldades de manutenção e limitações para expandir projetos.
Por isso, a modernização tecnológica das instituições de ensino precisa ser planejada como uma estratégia de longo prazo, e não apenas como a aquisição pontual de computadores, softwares ou plataformas. A infraestrutura deve acompanhar as necessidades pedagógicas, permitir a evolução dos sistemas e oferecer condições para que professores e estudantes utilizem os recursos disponíveis.

A próxima etapa da educação digital
A pesquisa TIC Educação 2025 mostra que a tecnologia já ocupa um espaço importante no planejamento das escolas brasileiras. Ao mesmo tempo, os indicadores de preparação docente e monitoramento da aprendizagem sugerem áreas que merecem atenção.
Isso não significa que a digitalização esteja falhando. Os dados representam percepções dos gestores e não permitem concluir, isoladamente, se houve melhora ou piora no desempenho dos estudantes. O que eles mostram é a importância de avançar para uma nova etapa: avaliar não apenas quantas tecnologias estão presentes nas escolas, mas como elas são utilizadas e quais resultados conseguem produzir.
O futuro da educação digital brasileira dependerá da capacidade de combinar inovação, infraestrutura, formação profissional e avaliação contínua. Porque o verdadeiro avanço não está simplesmente em colocar mais tecnologia dentro das escolas, mas em garantir que ela contribua para uma educação mais acessível, eficiente e de qualidade.
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Fontes
Cetic.br — TIC Educação 2025. Indicadores da pesquisa com gestores escolares, especialmente a tabela D8, sobre percepções relacionadas ao uso de tecnologias digitais nas escolas. Dados extraídos das planilhas oficiais de proporções disponibilizadas pelo Cetic.br.
UNESCO — Global Education Monitoring Report 2023. Technology in Education: A Tool on Whose Terms? Relatório internacional sobre acesso, equidade, aprendizagem, formação de professores e governança das tecnologias educacionais.
Nota metodológica: Os dados brasileiros referem-se às respostas de gestores de escolas com acesso à internet, conforme o indicador utilizado. As comparações com a UNESCO apresentam contextos internacionais e períodos diferentes, não constituindo uma comparação estatística direta entre Brasil e mundo.





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